Álbum de figurinhas

setembro 2nd, 2010

Tudo começou com um álbum de figurinhas da Copa. Eu, professora de educação física, não poderia ficar de fora de tamanha mobilização. Era importante essa minha aproximação com as crianças pra elas perceberem que o futebol é um fenômeno mundial, uma manifestações cultural.

Quando me dei conta, estava completamente envolvida pelas trocas que elas proporcionavam. Não era apenas troca de figurinha por figurinha, mas era uma troca de momentos com amigos, encontro pra um café, um almoço, uma tarde no shopping, alunos e professores, alunos e alunos.
(Natália Quintilio)”

Eram trocas de histórias de vida, culturas, orientações… Tinham que combinar quais regras regeriam aquele momento: 1 figurinha por 1 figurinha, pegar quantas precisar, brilhante por 5, brilhante por 1 real…

Com tanta gente colecionando e precisando de figurinhas, pensamos numa maneira de manter todo mundo ligado e mandando as figurinhas pra quem precisava. Criamos uma lista com nome e figurinhas faltantes e enviamos por email pra todo mundo que sabíamos que estava colecionando.

Diariamente recebia notícias do tipo: “tenho 10 figurinhas pra fulano e 5 pro seu aluno, quando vem pegar?” e assim foram dias e dias trocando figurinha, vendo amigos, levando no escritório dele, recebendo de gente que eu nem conhecia e repassando pra todo mundo…

Um dos momentos mais marcantes foi quando Pedro, de 11 anos, me disse: “Professora, a Carol só precisa dessa figurinha pra completar o álbum. Eu vou dar essa pra ela, depois eu consigo outra pra mim.” E voltei pra casa pensando em que outro momento poderia ter ensinado tão preciosa lição…

Emocionante também foi o momento em que um grupo de alunos, que estavam num encontro on-line com colegas da Escola da Ponte, de Portugal, descobriam que os álbuns eram os mesmos e se propuseram a trocar figurinhas pelo correio, até descobrirem que o caminho daqui até lá demoraria mais de 1 mês… E concluíram que, com certeza, conseguiriam essa figurinha nesse tempo, porém, estavam dispostos a mandar ou pedir, caso alguém precisasse. Enfim, outro aprendizado importante pra vida deles.

O comentário mais engraçado foi: “Naty, hoje comi 20 pacotinhos de figurinha”, depois que sai de um barzinho com minha amiga Ale… Era incrível a capacidade dessas figurinhas de regularem o nosso comportamento naqueles dias.

Convencer as crianças a colecionar o álbum foi tarefa fácil, difícil foi convencer os pais. Com a minha prima não foi diferente, mas comecei a colecionar pro Luiz Otávio (5 anos) e pra Marina, minha afilhada de 2 anos. Até que um dia minha prima me disse que o Luiz Otávio quis escrever “Copa do Mundo” inspirado no álbum. Quando ele completou o time da Alemanha, comentou: “Naty, esse time não é a Alemanha. E eu afirmei: “É sim…” E ele respondeu: “Não é não, esse time começa com a letra D!” Ele tinha razão, mas não sabia que no álbum o nome dos times estavam em inglês. Sensacional ouvir isso de uma criança quase alfabetizada, mostrando o quanto uma atividade prazerosa ajuda nos ensinamentos passados pela escola.

Ao completarem seus álbuns algumas crianças vieram doar suas repetidas, afim de que outros álbuns pudessem ser completados. “Professora, leve essas figurinhas e veja na sua lista que precisa”. E, neste ponto, percebi como estava sendo importante tudo isso pra eles. Não poderia deixar o movimento perder força.

Tinha gente de todo jeito: crianças, adultos, avós fazendo pros netos, pais fazendo pros filhos, médicos, advogados, juízes, gêmeos, meninos, meninas, alunos de escolas públicas e particulares… A figurinha colocou todo mundo na mesma condição, a moeda de troca era a mesma e todos podiam dar e receber. E, exatamente nessa condição que está o que mais me encantou dessa história. Seria simples eu mesma concluir o que de bom isso trouxe às crianças, mas prefiro que elas mesmas digam o que sentiram:

“Eu acho que o espírito de equipe ajuda em várias ocasiões, principalmente onde há vários amigos unidos com o mesmo propósito: ajudar o próximo” (Carolina, 13 anos).  “Eu achei muito legal, a Naty me deu figurinha pra completar o álbum e eu gostei que o Victor também completou” (Luis Gustavo, 7 anos). “Eu achei muito legal e eu agora agradeço às pessoas que me ajudaram” (Felipe, 7 anos) “É muito legal trocar figurinhas, a gente dá um tanto que a outra pessoa precisa e recebe várias em troca” (Vitor, 7 anos). “Se eu tinha 2 figurinhas, eu dava essas 2 e recebia quantas eu precisasse. Eu ajudei meus amigos e outros também me ajudaram. Não importa a quantidade” (Leonardo, 9 anos).

Foram quase 100 álbuns completados com essa brincadeira. Mas isso não importa. O importante é a lição que isso deixou na vida de cada criança. Não importava se ela tinha muitas ou poucas figurinhas, o importante é que ela estava inserida no contexto e era capaz de interagir com outras pessoas, conhecidas ou não.

As aulas retornaram e, qual não foi minha surpresa, no 1º dia, 3 alunos vieram e me entregaram as figurinhas, com o mesmo discurso: “Professora Naty, completei meu álbum. Você ainda tem aquela listinha?”

E continuarei repassando as figurinhas pra quem precisa. Orgulhosa dos meus alunos e da superação que cada um teve. Hoje em dia não é fácil dar sem receber nada em troca. Muito pelo contrário, eles se acostumaram a apenas receber, sem esforço. Que essa lição perdure, por muitas Copas.

(Natália Quintilio)

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2 Comments Add your own

  • 1. Naty  |  setembro 23rd, 2010 at 16:01

    má, obrigada pelo apoio.
    bjão

  • 2. Juliana Marconi  |  setembro 23rd, 2010 at 16:01

    Partcipei um pouco deste trabalho, pensei a princípio que o único beneficio com ele seria de ordenar números, perceber quanto falta para preencher o álbum e outros ítens relacionados ao pedagógico. Porém, tal foi minha surpresa que as crianças puderam aprender muito mais do que a matemática pode ensinar, elas aprenderam a conviver com outras, a respeitar e entenderam o verdadeiro sentido de ajudar. Valeu Naty! Que tantos outros professores tenha esta sensibilidade para o aprender e ensinar, que vai além dos muros da escola.

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